28 agosto 2007

As teorias da identidade (II)


(continuação deste post)

A noção de pessoa humana existe em todas as culturas, e já aparece na Antiguidade, com termos que compreendem uma gama de significados que vão de “alma” a “mente”, passando por “animo, alento, espírito”: em sânscrito alman, em grego psyche, em latim animus e spiritus. Esta superposição de significados existe ainda hoje no idioma alemão, com o termo Seele, que se refere tanto à alma quanto à mente.
Como já foi dito na primeira parte deste artigo, a concepção de pessoa ou indivíduo, tal como o entendemos atualmente, não tem sido a mesma ao longo da história, nem em todas as culturas. Em várias sociedades ainda não contaminadas pela cultura ocidental moderna, o Eu tende a ser entendido não como uma unidade autônoma e independente, mas como parte de um todo maior. A idéia de pessoa, ou do “si-mesmo” é, nessas culturas, muito mais contextual e relacional. Por exemplo, entre os Zulu, na África meridional, existe a seguinte expressão: umuntu ngumuntu ngabantu, que significa “você é apenas uma pessoa por causa das outras pessoas”. O conceito de humanidade, nessa cultura, inclui não apenas as outras pessoas, mas também os outros seres vivos e falecidos, e os ambientes naturais e materiais que dão sustentação à vida.
Um segundo exemplo nos é fornecido pela noção de nisba, presente na cultura Sefrou, do Marrocos. O nisba é a partícula do nome de toda pessoa que a identifica com algum grupo de parentesco ou afinidade, significando “nascido em tal lugar”, “filho de fulano”, “de tal tribo”, etc. No que diz respeito à concepção de pessoa, portanto, os Zulu e os Sefrou já antecipavam as tendências atuais da ciência em pensar o mundo em termos sistêmicos, com o ser humano integrando seus contextos relacionais e ecológicos.
Entretanto, na cultura ocidental contemporânea, a noção de pessoa e de Eu tem uma conotação muito mais individualista. Vimos que esta noção começa a ser construído na Grécia Antiga, com Sócrates. Durante toda a Idade Média, o indivíduo deixou de ser pensado como um agente autônomo, e estava predestinado em grande parte a ser o que era pela estrutura rígida da sociedade feudal e pela influência da igreja, num período que viria a ser denominado de Escolasticismo. Nesta concepção teológica, ocorre o “desaparecimento” do Eu; o ser humano perde sua capacidade de produzir conhecimento sobre o mundo e sobre si mesmo; e as verdades são apenas aquelas reveladas por Deus na Bíblia, e interpretadas pela Igreja. Tal situação viria a se modificar no Renascimento, por ocasião da Reforma Protestante, o Iluminismo e o surgimento do liberalismo burguês. O Renascimento, de fato, significou um “novo nascimento” da idéia de indivíduo como ser independente, responsável por suas escolhas, e capaz de pensar.
Uma manifestação desse nascimento do sujeito moderno encontra-se na literatura, com as obras introspectivas de Shakespeare, cheias de questionamentos acerca do que é a vida e a morte, o amor, e todos os outros sentimentos que caracterizam a condição humana. Aí está Hamlet a se perguntar: ser ou não ser...? Na filosofia, encontramos a famosa frase de Descartes, que foi um dos filósofos mais importantes desse período, e que define a condição humana exatamente pelo fato de sermos seres pensantes: cogito, ergo sum, ou seja, penso, logo existo.
De fato, é a capacidade de pensar, recuperada no período da Modernidade, assim como a liberdade individual, que vai dar forma à concepção de sujeito ainda dominante em nossa cultura. Não apenas René Descartes, mas outros filósofos como David Hume e John Locke, ocuparam-se bastante em entender como se constrói o saber e, por conseqüência, como o indivíduo se constitui enquanto um ser autônomo.
Mas ainda não havia surgido uma disciplina científica bem definida que se dedicasse ao conhecimento da mente humana, o que ocorreria apenas no início do século XX, com o aparecimento da Psicologia e da Psicanálise.

26 agosto 2007

24 agosto 2007

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